Que ele sofre

CRÍTICA

Crítica da peça O que o meu corpo nu te conta?

Por Daniele Avila Small

Escrever uma crítica dessa peça evidencia uma condição básica tanto da crítica quanto da recepção teatral de modo geral: não existe “a obra”, existem tantas experiências da mesma obra quanto o número de espectadores que a assistem. Penso ainda que as experiências das obras se modificam totalmente na memória e que são formadas tanto pelo que é posto em cena quanto pelo que cada um traz de repertório prévio na ação da recepção. Dito isto, explico a ênfase que essa peça coloca: o espetáculo dispõe de uma série de pequenos relatos para que os espectadores escolham os que querem ver e ouvir. A cada apresentação, é difícil que duas pessoas consigam ver exatamente a mesma combinação de cenas. Para pensar essa peça, o que tenho em mãos é a combinação de cenas que vi. No entanto, chamo a atenção para o fato de que as peças que vi imediatamente antes e imediatamente depois, bem como o repertório de espetáculos que acessei ao longo da minha estadia em Santos para acompanhar o MIRADA, junto com as muitas conversas com outros artistas, críticas e pesquisadoras, enformam o meu olhar para esse espetáculo. Há um contexto tão tumultuado em jogo, que não tenho como isolar a peça em uma metodologia asséptica.  

Uma imagem que sempre me retorna à mente quando vejo um corpo nu em situação de arte hoje em dia é a memória de um dos casos mais violentos de manipulação de informação e criminalização da prática artística de que já ouvi falar, e que aconteceu no Brasil em 2017 contra um artista que admiro e respeito profundamente. As acusações forjadas contra Wagner Schwartz (e contra a mãe da criança que foi perversamente envolvida pela extrema direita em uma campanha de notícias falsas), por ocasião da sua obra La Bête, reviraram o Brasil do avesso, mostrando ao mundo – porque a repercussão foi amplamente internacional – o quanto o Brasil é um país cheio de pessoas recalcadas, tristes, reprimidas, moralistas e ressentidas. O ressentimento aparece em tudo, mas esse episódio colocou em evidência o ressentimento muito profundo, até o ódio mesmo, que o país tem para com seus próprios artistas. Por outro lado, também ficou gritante o pânico com o corpo nu, algo que não se esperaria de um país que tanto explora comercialmente a nudez, em especial a nudez feminina. Apareceu, nesse acontecimento, a imagem do corpo nu como uma ameaça, uma afronta. E a incapacidade que muita gente tem de dissociar a nudez do apelo sexual.

É evidente que outros espetáculos e obras já colocaram a nudez em cena de vários outros modos desde então e que muita elaboração sobre o assunto foi feita por artistas e intelectuais de diversas áreas. Mas ainda é preciso continuar tentado abordar todo esse recalque com a nudez com o público de fora da bolha que se interessa pelo pensamento crítico. Em alguma medida, O que o meu corpo nu te conta? pode ser um caminho para isso. Aqui, a nudez está no centro da cena e o título da peça se endereça ao público com uma pergunta, como uma ênfase, mas o espetáculo mantém os espectadores a uma distância confortável o suficiente para acolher aqueles que eventualmente se sintam amedrontados por corpos nus em peças de teatro. Toda essa história criou em mim uma determinada expectativa, uma expectativa prévia e inconsciente, que não encontrou eco na peça: a ideia de que a complexidade da nudez fosse uma questão a ser abordada. A partir desse desencontro se deu a minha experiência.

Escolhi (na medida do possível, pois a encenação lança mão de estratégias que bagunçam nossas escolhas individuais) acompanhar os relatos das mulheres – brancas e não brancas, cis e trans – do elenco. Ouvi também dois homens não brancos. As histórias, contadas com corpos nus, principalmente as das mulheres, revelam violências sofridas por aqueles corpos, por suas características físicas e suas posições sociais. São histórias de opressão e sofrimento. Há também a afirmação da insubordinação, ou o desejo disso, mas é sempre uma insubordinação meio magoada, às vezes com uma ou outra frase meio açucarada demais, que escorrega para o motivacional. Palavras e frases que poderiam estar em uma hashtag. Embora eles nos alertem no início que nem todas as histórias correspondem à vida de quem está contando, as narrativas me soaram demasiado literais, coladas na pobreza dramatúrgica da vida cotidiana. Acho que eu já tinha escutado todas aquelas histórias, várias vezes. E tive a impressão de que aquele conjunto de histórias cumpre um certo checklist de denúncias que aparece em muitas outras peças (eu tinha acabado de assistir à peça do Yuyachkani, que também passa por uma outra espécie de checklist de problemas). Saí do teatro cansada de tanto sofrimento e logo encontrei um amigo que veio conversar justamente sobre isso.

Imagino que nem todos os relatos da peça sejam desse mesmo teor, mas isso foi o que se apresentou para mim naquele dia. O modo como a encenação de Marcelo Várzea organiza a relação entre os artistas, as cenas e os espectadores, tem uma dinâmica bem interessante e acho que eu deveria ter escutado melhor o conselho que a peça dá: “não faça escolhas obvias”. Mas, tendo oportunidade, vou querer ir de novo e renovar meus votos com as escolhas obvias, para tentar ver se os corpos masculinos e brancos do elenco também estão agrilhoados aos seus frangalhos ou se conseguem imprimir um pouco mais de imaginação naquilo que fabulam.

Mas sigo pensando que o relato literal de dor e sofrimento e a denúncia das opressões no teatro feito no Brasil talvez tenha chegado a um ponto de esgotamento, e que a carpintaria da criação teatral tem mais a oferecer do que estamos escolhendo usar. Mesmo com a pobreza de recursos a que estamos limitados, acho que a gente precisa conseguir se descolar desse chão em que estão nos pisando. Considerando as outras peças brasileiras que vi no festival, o espetáculo Ch ãO, de Marcela Levi e Lucía Russo, por exemplo, põe em cena uma tentativa de “escapulir”. Bola de fogo, de Fábio Osório Monteiro, também dá uma lindíssima volta sobre si mesmo, cuspindo fogo num depoimento solar e nutritivo. Pena que os festivais não proporcionam que os artistas consigam assistir uns aos outros. Talvez aí esteja um ponto para a gente pensar esse esgotamento. Nossos corpos, nus ou vestidos, diante das telas, nos teatros ou nas salas de ensaio, estão se alimentando de quê? 

*Daniele Avila Small é artista de teatro, crítica e curadora. Idealizadora e editora da revista Questão de Crítica desde 2008, é autora do livro O crítico ignorante – uma negociação teórica meio complicada (7Letras, 2015) e Doutora em Artes Cênicas pela UNIRIO.